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observatório ecopolítica

ano II, n. 28, novembro, 2017.

 

sobre a utopia dos cálculos


A criptografia pode ser definida como um embaralhamento ou substituição por outros códigos na composição de uma palavra, frase ou texto. Apenas quem souber como encaixar cada pedaço ou conseguir decifrar o que é cada parte e a sequência obterá a informação. Em aplicativos de mensagens a criptografia é comumente referida como a garantia de segurança de que as conversas não serão acessadas por mais ninguém além do emissor e o devido receptor.

 

Criptografar foi uma das armas utilizadas na II Guerra Mundial. Os ataques por terra, mar e ar eram informados em mensagens codificadas. Os lados em confronto precisavam interceptá-las e decodificá-las para almejar aproximarem-se da vitória.

 

Há poucos anos, graças ao cinema, ficou conhecida a história do jovem matemático Alan Turing. Durante a II Guerra Mundial, ele e sua equipe construíram na Inglaterra uma máquina eletromecânica — uma das procedências dos atuais computadores —, capaz de decifrar a Enigma — máquina de decodificação da marinha nazista que mudava de parâmetros diariamente.

 

Também nos EUA, na mesma época, outro jovem, Claude Shannon foi convocado pelo governo para trabalhar com a criptoanálise. Enquanto Turing decodificava, Shannon, do outro lado do Atlântico, codificava as mensagens trocadas pelos aliados por meio do sistema de criptografia de fala digital SIGSALY. A sigla nome não era um acrônimo, mas um código que se referia a outros projetos que o compunham, como o Sistema X, Projeto X, Ciphony I e Green Hornet. A criptografia permaneceu indecifrável até o final da guerra.

 

Turing suicidou-se em 1954, aos 41 anos, dois anos após ser julgado e condenado à castração química por ser homossexual. Foi perdoado pela Rainha em 2013, e sua casa condecorada pelo governo com uma placa azul destinada aos cidadãos notáveis. Shannon continuou a pesquisar, tendo como um dos temas, a cibernética. Os dois matemáticos seguem presentes nas universidades com suas teorias, estátuas e nomes de prêmios.

 

bit

 

Shannon e Turing encontraram-se uma vez. O inglês foi aos EUA para participar de um projeto sobre a construção de redes transatlânticas para transmissão de dados. Durante a Guerra Fria, essas pesquisas foram retomadas na construção da ARPANET, projetada pelo governo dos EUA nos laboratório da NSA (Agência de Segurança Nacional) para garantir a comunicação mesmo em caso de bombardeios ao Pentágono. Depois foi modificada com a entrada das universidades no projeto e popularizada na década de 1990 como Internet.. Sobre o encontro, Shannon afirmou que Turing foi fundamental para o desenvolvimento de seu conceito de entropia, que viria a desdobrar-se em outro conceito, o de bit.

 

Bit, segundo Shannon em seus apontamentos no pós-guerra, é a unidade básica da informação, um pedaço, e possui somente duas variáveis. Por exemplo, ao jogar uma moeda, o resultado pode ser cara ou coroa, nunca os dois; da mesma forma, o bit pode ser ou 1 ou 0, nunca ambos.

 

Um dos usos dessa linguagem binária foi introduzida na fábrica com o emprego de cartões perfurados nas máquinas de tear para dar um comando para determinado padrão têxtil no início do século XIX. No século XX, além do uso na máquina de Turing nos contemporâneos cartões de loteria e de respostas utilizados nos processos seletivos e vestibulares, a linguagem binária foi utilizada, anteriormente, na gestão dos campos de concentração e extermínio nazistas para classificar e catalogar os prisioneiros.

 

Uma sequência de bit também determina o funcionamento de uma máquina, desde calculadoras até computadores, tablets, relógios, smartphones, smart TVs e qualquer outro aparelho smart. Bits constituem o conteúdo que se comunica: está nas fotos, nos e-mails que circulam, nos vídeos, nos sites, nos jogos... 

Portanto, propagamos e armazenamos bits nos aparelhos, e sua sequência compõe as inúmeras informações e comandos.



R A D.A.R


Alan Turing: The enigma.

 

Relatório de Alan Turing sobre sua ida a Washington DC em novembro de 1942. Liberado para consulta em outubro de 2004.

 

The mathematical theory of communication. The University of Illinois Press, 1964.

 

Hakim Bey. Quantum Mechanics & Chaos Theory.

 



qubit

 

Não é possível compreender a comunicação eletrônica e seus desdobramentos sem bits. Entretanto, as tecnologias computo-informacionais tendem a ficar obsoletas. Dos bits nos computadores convencionais, abre-se espaço para os qubits na computação quântica.

 

Não mais a certeza do binário entre 0 e 1, mas outras possibilidades. Um qubit tanto será 1 ou 0 como ambos, podendo realizar inúmeros cálculos paralelos.

 

Os estudos do qubit são pautados na física quântica, que se fortaleceu no EUA durante a II Guerra Mundial, quando os cursos universitários de física foram reestruturados, retirando as disciplinas relacionadas às discussões filosóficas — modelo que seria adotado pelo Brasil —, e inúmeros físicos foram convocados para realizar pesquisas sobre redes de comunicação, radares, bomba, etc.

 

A corrida para a construção do primeiro computador quântico segue acirrada atualmente, com grandes empresas como IBM, Microsoft, Intel e Google, entre outras, na disputa. Mas, como as taxas de erros ainda são altíssimas, pretende-se reduzi-las a partir de cálculos articulados à inteligência artificial (IA).

 

A IA, elaborada inicialmente por Turing, é a capacidade de um computador realizar cálculos como o cérebro humano, ou mais rápido. Não se trata de um futuro distópico da escravização das pessoas por máquinas, mas como essas podem fazer cálculos precisos que um humano levaria semanas, meses ou anos em meio a erros e acertos. Essas também armazenariam erros para evitá-los e conseguiriam desenvolver fórmulas sem a interferência direta de um pesquisador para continuar os cálculos.

 

Espera-se que o desenvolvimento da IA dê conta dos entraves para a programação de um computador quântico. Enquanto isso, empreendedores pesquisadores universitários buscam financiamentos em bancos e empresas para montarem suas startups e comercializarem suas descobertas e algoritmos com empresas que estão na dianteira dessa corrida.

 

A notícia da previsão de alguns anos para a construção de um transistor — componente principal em um chip no processamento de bit — para os qubits agitou as especulações sobre o que pode ser calculado, visto que as possibilidades dos computadores quânticos ainda são desconhecidas.

 

Sabe-se que, provavelmente, a inovação quebraria as criptografias mais usadas hoje, o que já pretendia Turing ao elaborar a Máquina Turing Universal. Os computadores poderiam realizar cálculos que até agora não puderam ser solucionados, processar em outras dimensões e mostrar como um átomo pode ocupar dois lugares ao mesmo tempo. Assim, não se trata mais de determinar as leis de movimento da física clássica, mas observar o átomo em sua especificidade e explorar as capacidades do multiverso, universos simultâneos que poderiam explicar o universo.

Os computadores atuais não estão com os dias contados, continuarão a ser usados. Mas os quânticos abrem possibilidades, por meio da inteligência artificial, de pesquisar nos limites da física, nos limites dos átomos, e tentam também justificar as transformações na natureza, prever terremotos, maremotos, e mesmo a possibilidade de um meteoro colidir-se com a Terra...

 

Afinal, um dos maiores físicos da história, Albert Einstein, pesquisador do núcleo do átomo, integrante do Projeto Manhattan, afirmava que “Deus não brinca com dados no universo”, mas que tudo estaria determinado e seria passível de previsão. Não se sabe ao certo a dimensão dos cálculos dos computadores quânticos. Enquanto isso se atualiza a pretensa utopia dos cálculos que tudo podem compreender e determinar.



 


O observatório ecopolítica é uma publicação quinzenal do nu-sol aberta a colaboradores. Resulta do Projeto Temático FAPESP – Ecopolítica: governamentalidade planetária, novas institucionalizações e resistências na sociedade de controle. Produz cartografias do governo do planeta a partir de quatro fluxos: meio ambiente, segurança, direitos e penalização a céu aberto. observa.ecopolitica@pucsp.br

 

 

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