Selecione abaixo a informação que deseja visualizar.

Página Inicial
Curso da UAM
História do Jornal
Quem Somos
Crônicas
Astrologia
Aspectos Biopsicossociais
Com a Palavra o Professor
Gente Notável
Entrevista
Eventos & Notícias
Palavra Poética
Sabor & Saber
Turismo
Curiosidades
Caça-palavras
Cultura & Lazer
Carta do Leitor
Edições Anteriores
Videoteca
Galeria de Imagens
Fale Conosco
  Cadastre-se

 

 

 
Página inicial
   |   Contato


LIBERDADE DE VIVER E SER!

Wanda D’Amato Fumo, 78 anos, nascida em 16 de março de 1929, é uma personalidade UAM. Ela tem muita história para contar, umas que provocam boas risadas, outras de chorar de emoção. Como uma pessoa pode ser tão otimista e tão alegre assim? Se você acha que já a conhece, vai conhecer um pouquinho mais agora, e se você não a conhece, aproveite. Esse momento é de pura recordação.

 

Jornal MaturidadesQual a história do seu sobrenome -D’Amato Fumo?
Wanda D’Amato Fumo – Tanto o Fumo quanto o D’Amato são nomes de origem italiana. Papai era de um lugar e meu sogro era de outro da Itália. Fumo, no Brasil, só temos nós, D’Amato já é mais comum. Vem de uma família de Salerno. Dizem que o brasão da nossa família está exposto na Itália.

JMComo era sua família?
Wanda – Papai era italiano. Ele veio cedo para o Brasil, casou e teve os filhos aqui. Ele considerava o Brasil a pátria dele. Dizia: “Aqui é minha pátria, porque é aqui que eu dou de comer para minha mulher e meus filhos”. Papai era uma pessoa muito honesta, séria, trabalhadora e humilde. João D’Amato era sapateiro e lutou para criar os quatro filhos – três homens e eu de mulher. Mamãe era brasileira, filha de italianos e nunca trabalhou fora, mas trabalhou muito em casa, porque criar quatro filhos... Ajudou papai porque era muito econômica, colaborava em tudo. Mamãe era muito especial e calma. Para ela tudo estava bom, não exigia nada. Criou os filhos numa boa e com educação. Era muito sábia.  

JM – Como é seu dia a dia?
Wanda – Hoje eu precisaria de 24 horas só para o dia (risos). Tem horas que eu penso que vou ter de pedir licença para respirar, porque eu não tenho tempo. Corro muito e sou agitada. Faço mil coisas de uma vez, mas tudo com amor e carinho. Faço, faço e não me canso, mas se eu me cansar eu sento. Quinze minutos é o suficiente, pois recupero rápido. Tenho uma energia fabulosa.

TRABALHO

JM – Você trabalha?
Wanda – Sim. Sou free lancer para três agências de viagem. Financeiramente, graças a Deus, não preciso trabalhar para viver, mas ajuda e bastante. Eu trabalho desde 7 anos. Não parei nem quando engravidei. Ficava enorme, mas trabalhava até o último dia. Não tinha empregada... era tanque, era roupa, era cuidar de crianças pequenas.

JM – Parece que você gosta muito de trabalhar.
Wanda – Gosto de trabalhar porque eu tenho intimidade com o público. E, desde a idade de 7 anos, eu lido com o público. Fui vendedora de casas, terrenos, chácaras e tive imobiliária... Também já fiz cobrança de livros e de títulos de poupança na rua. Agora, com esse trabalho de viagens, viajo quase todo mês. Gosto do que faço!
Na minha vida, eu já lidei com as pessoas mais humildes, os favelados, até o mais alto escalão, que foi o embaixador do Brasil – José Carlos de Macedo Soares. Fui procurá-lo porque eu queria uma bolsa de estudo para a minha filha no Colégio São José. Eu não tinha condição de pagar. Eu não sabia nem como tratar ele, se de Sr. ou de Dr.. Ele chegou muito simpático, vermelho, gordo, abriu a porta para mim, sentei num cantinho (eu era magrinha naquela época) e ele deu a bolsa de estudos para a minha filha. Todo dia agradeço a ele.

JM – Trabalhar desde pequena faz você ser diferente hoje? Por quê?
Wanda – Faz. Porque eu acho assim, quando você trabalha da forma que eu trabalho e sempre trabalhei, você não tem tempo de pensar besteira, de ficar doente, de envelhecer. Sinto-me muito bem como estou.

JM – Qual é a receita?
Wanda – É trabalho, trabalho, trabalho e trabalho. Eu quero morrer trabalhando, porque eu adoro o que eu faço.

UNIVERSIDADE ABERTA À MATURIDADE

JM – Desde quando você está aqui, na UAM da PUC?
Wanda – Desde 1993. Fez agora, em março de 2007, 14 anos. E, não pretendo sair tão cedo, só se me mandarem embora. Toda entrevista que eu cedo eu falo a mesma coisa, porque é como trabalhar, enquanto eu tiver condição...

JM – Como é sua relação com as colegas de classe?
Wanda – Se eu faltar ou uma colega faltar, a gente procura saber o porquê da falta. Virou uma família,... Uma família gostosa! Todo mundo se dá bem e a gente não vê a hora das férias acabarem. Por isso, durante as férias, a gente se reúne para almoçar...

JM – Qual a matéria que você mais gosta do curso?
Gosto muito de Geografia. O Prof. Nelson Bacic é fabuloso. Gosto muito também da Profa. Maria Isabel - cientista, que ensina Ortomolecular - porque a gente aprende também muita coisa para ter saúde. Mas eu gosto mesmo é de coisas alegres. O Prof. Carlos Alberto Gasparini (História) também é muito bom.

JM - Qual é a troca entre você e a UAM? O que você sente?
Wanda – A troca é que enquanto estou sempre disposta a colaborar com os coordenadores, como compensação, eu ganho aprendizado. É uma reciclagem... Por exemplo, a maior frustração da minha vida foi não ter feito faculdade. Mas, quando descobri esta faculdade foi um sonho maior realizado porque “eu ia para uma universidade, para uma faculdade”. Imagina? Eu, em uma faculdade?!... Esparramei a notícia para meio mundo e comecei a trazer gente pra cá. No começo ficava meio acanhada porque desde que eu saí do primário nunca mais tinha pegado em uma caneta. Quando a Profa.Vitória Kachar (Informática) quase me obrigou a escrever um verso, uma poesia, levei quatro meses para terminar. No fim, eu fui inspirada (minha filha fala que foi psicografado). Não sei se foi ou não foi, sei que eu escrevi. O problema é que eu não me dei valor, né? No fim eu fiz uma poesia até bonita.

JM – O que mudou em você nos últimos 10 anos?
Wanda – Eu acho que ganhei muito entrando na faculdade. As minhas atitudes mudaram, porque eu era bastante acanhada, apesar de ser bastante faladeira e lidar com o público. Melhorou essa parte da timidez, porque eu tive mais convivência com pessoas diferentes. Eu entrei em um ano que eu estava parada, sem trabalhar e morava com minha filha. Então, ela foi morar longe, no Sul.  Fiquei praticamente sozinha e eu tenho pavor de solidão. Foi quando conheci a faculdade, entrei e me libertei. A faculdade foi para mim uma tábua de salvação.

JM – Tem alguma coisa que ainda não fez, gostaria de fazer e que está ainda nos seus planos?
Wanda – Na verdade, no momento, eu não tenho assim uma meta, gostaria de me aplicar no curso de Internet mais por causa do meu trabalho, porque iria me facilitar bastante.

PENSAMENTOS E IDÉIAS

JM – O que você não gosta de fazer?
Wanda – Trabalho 24 horas se for preciso, mas tem duas coisas que eu não gosto: não me manda carregar peso e nem correr. Essas coisas eu não faço. Mas o que for preciso eu faço.

JM – O que você não gosta nas pessoas?
Wanda – Não gosto de pessoas desleais. Toda vida eu fui muito submissa. De uns anos pra cá estou mudando, porque cansei e as pessoas não dão valor. Sempre falei sim quando no íntimo eu queria dizer não. Então, eu mudei. Agora estou contente comigo mesma. Agora eu faço assim, primeiro eu, depois eu, depois você. Mas, descobri também que não é o caso de querer agradar as pessoas, é o caso de não saber falar não. Agora estou mais livre e mais segura.

JM – Você tem algum exemplo para dar dessa mudança?
Wanda – Recentemente eu fiz uma coisa que há muito tempo eu vinha querendo fazer. Liguei para meu cabeleireiro e fui bem positiva: “Você, por acaso, tem outra tinta que não aquelas que você anda me passando?”. Ele disse que tinha, mas que era a mesma química. Respondi: “Então, negativo, não vou mais tingir o cabelo com você.”. Eu nunca teria coragem de falar isso em outras épocas. Fiquei feliz comigo mesma. Eu falei: “Gente, tive coragem!”.

JM – O que você admira nas pessoas?
Wanda – Admiro pessoa que tem bom caráter, porque a que tem bom caráter você pode lidar com ela tranqüila, né? Mas se você sente que a pessoa é falsa, que ela está te agradando só porque você é você... Tenho pavor disso, de gente puxa saco. A gente tem de ser o que a gente é.

JM – Qual sua religião ou crença?
Wanda – Sempre fui católica. Mas quando meus filhos eram adolescentes comecei a ter visões. Tive tudo quanto era tipo de visão, só que eu não via ninguém conhecido. Passei a freqüentar um Centro Espírita, fiz curso Básico, mas por incrível que pareça, chegava na hora do curso sempre acontecia alguma coisa para eu escapar fora. Eu tenho muita sensibilidade. Sei quando as coisas vão acontecer. É premonição, né? Só que eu não me ligo. Vem e eu deixo passar.

JM – Como você vê o mundo?
Wanda – Vejo o mundo assim: você é você, não interfiro nem em pensamento, nem em palavras, nem em obras, na vida de ninguém, nem dos meus filhos.

JM – Como você educou seus filhos?
Wanda - Sempre ensinei a eles a serem educados, nunca tive reclamação deles, nunca me deram trabalho, nem para estudar nem para trabalhar. Tenho filhos maravilhosos, não tenho queixa, mas não interfiro em nada. Trabalhei de cerzideira em casa e criei meus filhos debaixo da minha saia. Eu me sentia muito responsável por eles, né? Deus me ajudou muito a educá-los: a menina é psicóloga, o irmão é engenheiro químico e o outro administrador de empresas. Eles formaram uma empresa e trabalham os três juntos. Não me dão dor de cabeça, não me pedem e nunca me pediram nada. Hoje eles estão retornando, não que eu peça.

JM – O que você valoriza?
Wanda – Para mim a liberdade é tudo. Não gosto de ser mandada. Não sei porque, mas sempre fui autônoma e livre. Acho que por isso que Deus me deu esse marido que me deixava fazer tudo o que queria, não me ajudou muito, mas nós nos completávamos.  

JM – O que te preocupa?
Wanda – O que me preocupa e me mata é a gordura. Tenho horror à gordura e sempre fui gorda, só que eu não aceito. Desde que eu me conheço por gente, faço dieta. Ganhei mais peso com a idade e não ganhei mais porque sou ativa. Estou sempre fazendo exercício. Yoga, ginástica, caminhada todo dia e subo 92 degraus toda manhã. Gosto muito de andar.

JM – O que você sente quando caminha?
Wanda – Falam que quando você caminha você descarrega a endorfina. Acho que é mesmo. Por exemplo, o professor cronometrava a nossa caminhada no Parque do Ibirapuera e eu estava sempre na frente. Depois de caminhar eu chegava e sentia necessidade de correr, ele dizia que era porque eu não tinha gastado toda energia. E eu não gosto de correr...

JM – Envelhecer. O que é isso para você?
Wanda - Não tive o menor problema quanto à idade até hoje. Passei pela mocidade, vim pela vida, estou na terceira, daqui a pouquinho chego na quarta, porque vou fazer 80 anos, mas isso nunca, jamais me preocupou.

JM – Hoje você mora com quem?
Wanda – Moro sozinha.

JM – Qual a diferença o que muda na sua vida morar com a família e sozinha?
Wanda – Muda bastante. Você morando com quem quer que seja, com filha, com nora, pode ser muito bem tratada e tudo, mas é diferente. Porque você perde a sua liberdade. De uma forma ou de outra tem sempre alguém interferindo na sua vida e eu não gosto disso. Mas quando é demais (interferência) não presta, não é? Então,...

JM – O que você gostaria de deixar de sugestão para outros idosos e/ou pessoas em processo de envelhecimento que não aceitam muito isso...
Wanda – A mensagem que eu dou é a seguinte: nunca se entregar e praticar muito exercício para ter uma velhice saudável. O velho assim como o jovem, tem restrições, mas quando ele está bem com ele mesmo ele consegue coisas muito boas.  
Não se deixar levar pela velhice. Não existe velho. Velho existe na cabeça de cada um. O espírito da gente é que manda. Se você comandar vai ser jovem eternamente, mesmo com a idade, com as rugas, sem dentes, continuará sendo jovem. Quando estou um pouquinho para baixo, ponho uma sandalinha ou um tênis e vou para a rua caminhar. Volto outra. Você tem que se gostar e fazer tudo para o seu bem. Quem gosta mais de você é você mesmo. A gente tem o direito de mudar. Eu mudei muita coisa. Sou feliz da forma que sou. Não almejo grandes coisas, mas tudo que vier é lucro. Quero, também, no meu restinho de vida aproveitar para passear, ir ao cinema, teatro, curtir meus netos, entende?

JM – Como é que você se vê?
Wanda – A Wanda é uma pessoa leal, que gosta de amizade (boas amizades!), de roupa nova e ama muito. Amo todos! Todo mundo é igual, não tem rico nem pobre pra mim. Sou uma pessoa muito persistente. Quando eu quero uma coisa eu vou atrás. Não tenho raiva de ninguém. Fico magoada na hora, mas depois passa. A minha vida se resume em família e trabalho. Até que deixei a família um pouco de lado (risos). Sabe como é, eu viajo muito... (mais risos)

JM – Se fosse para repetir a sua vida você mudaria alguma coisa ou não?
Wanda – Eu mudaria sim. Mudaria minha maneira de ser, de ser “vaquinha de presépio”, eu queria ser mais eu, ter mais personalidade.

JM – Sua vida teria sido diferente se você...
Wanda – Apesar de tudo, eu acho que teria sido diferente, porque agora eu vejo e reconheço que as pessoas só te dão valor quando você mesma se dá.

JM – Você parece ser uma pessoa apaixonada!
Wanda – Vivo bem e sou feliz. Foi assim e eu continuei assim. A vida pra mim é isto: saúde, saúde, saúde e o resto que se dane. Do resto você corre atrás e você consegue. Eu morava num porão, fiz financiamento, comprei um senhor de um sobrado e joguei fora tudo o que tinha. Chamei um decorador e mobiliei a casa inteirinha. Ficou linda. Linda! Comprei essa casa com a fé e a coragem e sonhando acordada. Aliás, consegui muita coisa sonhando acordada...
 

Célia Gennari
celia-gennari@uol.com.br

Ignez Ribeiro
ignisignis@uol.com.br

 
Edições Anteriores
* Os artigos publicados no jornal Maturidades são de inteira responsabilidade dos autores
(que exprimem suas opiniões e assinam seus artigos) devendo ser encaminhada
a estes toda e qualquer sugestão, crítica ou pedido de retratação.
       
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo • PUC-SP - Design DTI•NMD - 2016