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Nasce uma costureira

O recomeço da Fênix

 

A velhice em mim

Por Ney Baião Gonçalves

Impossível imaginar em substituir meus amigos, meu modo de encarar a vida, meus hábitos, convicções, manias do tempo, o que sobrou de minha família, por mais cabelos castanhos, brilhantes, abundantes, por um abdômen mais... Schwarzenegger e uma coluna vertebral indolor.

Essas perdas lamentáveis, porém, perfeitamente admitidas, compensaram-me com um espírito mais compreensível, flexível, menos crítico, menos ácido. Mais conformado com minhas deficiências e com as dos outros.

Tornei-me, na verdade, o “meu melhor amigo”!

Já não me lembro mais quando saboreava uma costelinha de porco comedidamente, apenas um pãozinho de manhã, e não demonstrava preocupação quando passava na porta de uma farmácia e via aquela balança me tentando.

Tudo coisa de um passado!

Já foi o tempo que tinha o hábito de tudo arrumadinho no lugar, como habitualmente policiava minha saudosa mãe, a rainha da “arrumação”.

Meus ¾ de século me forneceram alforria para andar “desarrumado” e, em casa, sem camisa, descalço e, até, sem cueca.

Ah, queridos amigos e irmãos, que prematuramente partiram, que levaram um pedaço de mim, mas não curtiram a liberdade que embala “a minha jornada do por do sol”!

Quem vai me censurar se resolvo ficar lendo, fazendo uma poesia, uma crônica, vendo minhas fotos antigas ou mesmo jogando paciência, por dez, doze horas por dia, no meu CPDS (“Centro de Processamento de Dados e Saudades”)?

Dormir? Só dez minutos, depois do banquete de Adelaide.
Os mais jovens acharão que não estou muito bem dos neurônios, observando-me em minha redoma, dançando ao som de "La Barca" com Lucho Gatica, ou "Let's Twist Again" de Chubby Checker.

Toda hora enxugando lágrimas... de amores feridos, de crianças perdidas, de carências descabidas, pedras no caminho e, até, de esperanças jogadas no lixo. Preocupações ainda há, mas fechando os olhos, não me sinto mais responsável ou mais preocupado. Choro mesmo... e não é pouco.

Ainda não me acostumei à desilusão de não mais ir à praia, pois minhas mutilações de inconformismo ainda não estão em sintonia com meu conforto. Não estou nem aí para andar de calça social ou nu na orla, na areia... A roupa não consegue esconder o corpo decadente. Os únicos que nos observam são eventuais olhares penalizados com a decadência explícita.

Minha convicção é que as pessoas sensíveis compreendam que, logo, logo, sentirão a dimensão da velhice...

Eu sei que, às vezes, procuramos esquecer coisas, infelizmente, às vezes, sem nosso consentimento. Refiro-me às tristes, certamente. Corações partidos e provações são os que nos fortalecem.

Coração que bate no compasso, que não enfrenta emoções fortes, jamais conhecerá a alegria. Somos reféns dos enfrentamentos e desafios para envelhecermos na paz.

Eu já me sinto abençoado por ter vivido o suficiente. Ter cabelos caindo das orelhas, do nariz, a testa cada vez maior, dentes cada vez mais frágeis, em meio a uma tez de juventude, entre sulcos que se perdem num engordamento compulsório da pandemia.

Ontem recebi em nosso refúgio a visita de um velho amigo com sua esposa, e filho... uma geração posterior à minha. Percebi, no semblante de todos, a atenção, o respeito e até uma forma disfarçada de não me contrariar, ou... torcer para que eu estivesse correto nas minhas convicções.
Estou me acostumando com a velhice...

Não levei sequer as visitas até a porta do condomínio. Até a necessidade de esforço excessivo para marcar nossa presença e explicitar a toda hora que temos posturas e educação, parece não mais fazer sentido...

Me sinto mais objetivo, positivo, prático!

Você se preocupa menos com o que os outros pensam. Eu não me questiono mais. Ganhei o direito de estar errado. Assim, para responder sua pergunta, eu gosto de ser idoso. Antes eram poucos que me ouviam... Hoje, aparentemente, todos estão atentos, ou será que fingem... O julgamento ficará para o supremo (o lá de cima).

A idade me libertou!

Eu gosto da pessoa que me tornei. Eu não vou viver para sempre, mas enquanto eu ainda estou aqui, eu não vou perder tempo lamentando o que poderia ter sido ou me preocupar com o que será.

Só paro de correr atrás do pé de moleque quando o médico, com os olhos esbugalhados exclamar: “Olha a glicose!”.

Se me presentear com barras de chocolate ou caixas de bombom, não vou repreendê-lo, censurá-lo: traço todos. Cocadas e balas, panetones e cuscuz de tapioca são “doces” amigos.

Que nossa amizade nunca acabe ou se esgote. Porque amizade é uma necessidade... Sobrevivência de um coração...

 
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